Uma coisa é realidade, outra coisa é percepção da realidade

Por Fabiane Albuquerque

O Brasil não é para amadores. Não está fácil acompanhar a realidade sem mal estar e estupefação. Há quem diga que as coisas melhoraram, quando a realidade indica o contrário. E piorou para grande parte da população brasileira, não dá para negar, ou dá. Como uma parcela considerável continua dizendo o contrário? De qual país falam quando dizem que a economia melhorou, o emprego aumentou e a corrupção diminuiu? Não é o Brasil real. A percepção da realidade não é a realidade. E vamos aos fatos, à política. 

Em 2016, eu estava na Itália para realizando minha pesquisa de mestrado com imigrantes. Foi quando alguém me disse que eu precisava comprar o jornal “La Repubblica” do dia 10 de janeiro daquele mesmo ano. O jornal impresso trazia uma entrevista com o ministro da Justiça Angelino Alfano, do governo Berlusconi, que fora também ministro do Interior durante o governo de Matteo Renzi. Na entrevista, o ministro admite que a lei aprovada em 2002 que torna os imigrantes indocumentados, criminosos diante da lei, não funcionou e que o objetivo era coibir a imigração. Mas, mesmo admitindo que o objetivo falhou e falhou feio, ele diz o seguinte “Não é hora de revogar essa lei, as pessoas não entenderiam”, prosseguindo seu argumento:

(…) No campo da segurança estamos jogando dois jogos intercruzados mas diversos: um sobre a realidade e o outro sobre a percepção da realidade. A realidade é que os crimes diminuíram, que nós alcançamos em 2015 o número mais baixo de homicídios da história da Itália, os crimes de roubo diminuíram, a criminalidade organizada nunca esteve tão baixa, soubemos gerir 10 mil manifestações de ordem pública e, sobretudo, soubemos desenvolver um ótimo trabalho na prevenção ao terrorismo. 

Questionado, então, sobre o fato da percepção dos italianos ser bem diferente da realidade, ele acrescenta:

Infelizmente é assim e não podemos culpar as pessoas. Temos que trabalhar para que uma percepção errada não modifique a realidade, porque no final o medo incide também na sensação de liberdade. O meu ‘não’ ao cancelamento do crime de clandestinidade diz respeito exatamente a isso: o momento é muito particular e não devemos dar aos italianos a ideia de uma diminuição da tensão sobre a segurança exatamente quando pedimos para acolher os refugiados. (ALFANO, ministro da Segurança, 2016)¹

Essa entrevista é fantástica! Alfano revelou as entranhas da política e as estratégias de se jogar com a percepção da realidade, criando com isso, uma outra “realidade”. Grande parte da população italiana que aprova essa lei, jura de pé junto que a percepção sobre a realidade é a própria realidade, ou seja, que os imigrantes indocumentados trazem o crime para o país e que a lei inibe a criminalidade. A realidade, como admitiu o ministro, é que a criminalidade caiu e essa queda, não tem nada a ver com imigração, pois os imigrantes continuam chegando, mesmo os  indocumentados.

E o que isso tem a ver com a situação atual do Brasil? Tudo. Falta somente um ministro do atual governo, admitir que trabalham para alterar a percepção da realidade.  E então chega o ministro da Justiça e da Segurança Publica e nos dá de presente a seguinte fala, na quarta-feira, dia 5 de fevereiro, em Brasília:

Há uma sensação de lei e ordem e de segurança graças à liderança do senhor presidente, que tem, inclusive, registrado efeitos em dados muito particulares. Por exemplo, incêndios criminosos de ônibus tivemos 123 em 2019. É muito? É muito. Mas é o menor número desde de 2012. Ministro Sérgio Moro

O discurso do ministro Sérgio Moro tem muito em comum com aquela de Alfano. Ele não mentiu quando disse que “Há a sensação”. Para uma parcela da população, essa sensação existe mesmo, mas ela não encontra respaldo na realidade. O que o ministro está dizendo é que a estratégia do governo de oferecer essa sensação através de um discurso e de dados falsos funciona e tem sido eficaz.

Os dados  de 2019 sobre homicídio no Brasil mostram uma queda em relação ao ano anterior e a 2017, cujo índice foi um dos maiores dos últimos anos. Mas ele não explicou que Segurança Pública é obrigação dos Estados da União e  nem o porquê do governo Federal ter mérito na diminuição desses homicídios em 2019. Ele deveria dizer como contribuiu com isso e quais as políticas públicas foram incidiram nessa diminuição. Mas ao invés disso, ele usou um exemplo, sem pé nem cabeça, para dizer que diminuiu o crime de incendiar ônibus, como se esse fosse o maior problema de segurança pública no Brasil. O número de feminicídio aumentou, o número de assassinatos cometidos pela Polícia Militar também cresceu 12% em São Paulo, em 2019, segundo a própria Ouvidoria das Polícias. Olha como se altera a realidade através da forma de dar uma notícia: No dia 16 de dezembro de 2019 o G1 publicou uma matéria com o seguinte título: “Monitor da Violência: assassinatos caem em 2019, mas letalidade policial aumenta; nº de presos provisórios volta a crescer”. Se trocarmos a palavra “letalidade”, que é ainda incompreendida por grande parte da população, por “assassinatos cometidos por policiais”, a notícia muda. Caberia ao leitor, se perguntar se os assassinatos diminuíram depois que a polícia passou a assassinar mais.

E não faltam representantes da elite para externar essa percepção em locais de prestígio e de poder, como a juíza do TRT 15, que disse durante uma sessão  o seguinte: “Esse governo nos dá esperança, eu tenho esperança” e continua “Em todas as áreas o governo Bolsonaro está se fazendo brilhar, ele está brilhando em todas as áreas (…) tenho esperança que o Brasil volte a ser o que era antes, a uns 40 anos atrás o Brasil já foi uma das maiores potências do mundo, com o PIB um dos maiores (….) se tivermos que perder, como eu já perdi, com algumas legislações, vale a pena por um Brasil melhor”. Que loucura! Que loucura! Precisamos “perder para ter um Brasil melhor”.

A percepção está ligada aos estímulos sensoriais mais básicos como ver e sentir. E isso não é a realidade, pois essa se impõe fora de si, independentemente das sensações subjetivas. No final do ano uma senhora brasileira me disse que o Brasil melhorou sim, economicamente, porque ela nunca vira um Shopping Center  tão cheio durante as festas de fim de ano. Ela está mentindo? Claro que não. Mas o que ela vê, não pode ser tomado como o todo da realidade econômica de um país. Mas a percepção da realidade altera com um fenômeno que foi se alastrando na sociedade brasileira e tomou conta, ou seja, “A Fé”. A fé é a crença em algo que não precisa de provas. As igrejas têm grande responsabilidade nisso, em alterar a percepção da realidade. Uma das frases mais usadas pelos crentes no país é “Jesus me abençoou”, geralmente ao comprar um carro, adquirir casa e até mesmo colocam silicone, como já ouvi de uma mulher ao realizar o sonho de da cirurgia dizer:  “Em nome de Jesus realizei essa cirurgia e deu tudo certo”.

Essas igrejas neopentecostais têm contribuído muito para criar sensações ou percepções equivocadas da realidade através do um linguajar próprio e da repetição dele até o convencimento :“Torço pelo Brasil” ou “Tenho fé que vai dar certo”? O fato de torcer ou crer não incide nos fatos, não cria nada, não muda dados, estatística, mas incide na percepção do fatos através de uma positividade construída e difundida. O governo sabe disso, as igrejas e a mídia corporativa também. Talvez por isso a ministra Damares tenha dito que :“A Ciência está dominada por cientistas”. Ela afirma a necessidade de tirar das mãos dos cientistas e estudiosos o poder sobre os fatos para que o campo esteja livre para os homens da fé dizerem como é o mundo”.

Resta ver se essa “sensação”, como diz o Ministro Sérgio Moro, consegue se sustentar por muito tempo, pois mantê-la inalterada é quase impossível. Esperemos que a realidade consiga rasgar a percepção sobre ela mesma e se impor. O tempo urge.

Fabiane Albuquerque é socióloga e pesquisadora pela Universidade Estadual de Campinas 

Fonte: https://www.justificando.com/2020/03/05/uma-coisa-e-realidade-outra-coisa-percepcao-da-realidade/

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